Em 1998, esse negócio de internet apenas engatinhava no Brasil. Diferente de hoje, quando antes de você gritar "ai" a sua topada já está exposta até o ex-planeta Plutão, o acesso à informação sobre a retocolite ainda era resumido à TV, jornais, revistas e literaturas específicas. Por isso, não tive desespero quando descobri que tinha uma doença de nome grande e esquisito: retocolite ulcerativa idiopática. Ao contrário do que acontece hoje, época em que você faz uma pesquisa simples e os olhos parecem que só acham aqueles sintomas que causam tremor na alma.
Em 1997, comecei a sentir os primeiros sintomas. Em princípio, atribuí aquela diarreia com sangramento a um biscoito com data vencida que comi. Dias depois, comi um açaí na tigela. Era a época onde todas as casas de suco do Rio serviam o suco cremoso da fruta que tomava conta da cidade. Como foi minha primeira experiência, achei que fosse reação ao meu lanche. No ônibus de volta pra casa, eu suava frio no meio da viagem e cheguei a minha casa depois de um grande sufoco. Misturando tudo isso, é óbvio que eu só poderia atribuir minha situação ao que eu havia ingerido. Só que os sintomas se arrastavam por dias e eu comecei a ficar preocupado com aquilo. Diarreia, dor, sangramento com vários episódios ao dia. Aquilo estava se tornando sério.
Eu tinha um problema: escondia essa situação das pessoas, mas chegou um dia que não tive mais como. Não havia plano de saúde nessa época, então eu precisava recorrer aos serviços públicos que, embora ruins, eram bem melhores que hoje em dia. Comecei procurando o que estava mais acessível. Atrás da minha rua havia um serviço social de um vereador. Fui lá e a experiência foi bem ruim. Relatei todos os sintomas que sentia mas eu notava certa insegurança no médico. E eu tinha razão, porque não era, pois se tratava de um estagiário. Ele ouviu, suou um pouco, pegou uma das caixas de amostras de remédios, leu toda a bula e me receitou o próprio. O diagnóstico? Giardíase. Tomei aqueles comprimidos mas não vi nada melhorar. Até então eu relatava a minha família que sofria de uma diarreia que não passava. Não teve jeito e tive que encarar o Hospital Rocha Faria, na época, do Estado. Em meio a tanta gente e aguardando minha vez, meu pai, que me acompanhava, perguntou se eu tinha sangramento. Era o que eu teria que dizer ao médico, então eu disse que sim. E assim foi. O médico me chamou, relatei tudo e ele, sem pedir exame, cravou: giardíase e me passou o mesmo medicamento. Mas como agora era um médico, pensei em acreditar. Lógico que não adiantou porque eu não melhorei nada - e nem poderia.
A essa altura, eu já havia perdido peso depois de seguidos dias no mesmo estado. Enquanto eu e minha família procurávamos onde resolver meu problema, algumas receitas mágicas de vizinhos. A pior experiência nesse sentido tive quando uma vizinha apresentou um remedinho caseiro: água, suco de limão, vinagre, açúcar e farinha de mandioca. Claro que não quis tomar, mas como insistiram tanto, bebi aquela água esquisita, sabendo que não adiantaria nada. Acho que esse foi meu primeiro trauma da doença. Imagina se limonada sabor vinagre iria resolver um sangramento de tantos dias.
Algumas pessoas apareciam lá em casa pra tentar ajudar. Uma delas queria levar uma "folha ungida" da Universal pra colocar sob meu travesseiro. Neguei na hora. Apareciam algumas pessoas pra orar de maneiras avessas ao que Deus nos ensina. Fora essas, eu sempre recebi orações por parte da igreja, da família e amigos com a mesma confissão de fé. Era mesmo pra isso acontecer, mas eu precisava mesmo de um bom médico.
Até que entramos em contato com meu tio Paulo Lomba, que tinha um contato no Hospital da Lagoa. Fomos pra lá cedo e ele me levou de carro, com meu pai acompanhando. Já nesses dias eu não podia ficar tanto tempo fora de casa por ter que ir tantas vezes ao banheiro. Lá eu cheguei a ir enquanto esperava me chamarem na emergência. Teve uma hora que fiquei tão fraco que deitei no banco de concreto que ficava na área externa do hospital. O segurança chamou atenção dizendo que não poderia ficar ali. Aí foi a vez do meu tio chamar a atenção dele, pois já havia horas que eu estava ali sem nenhuma condição de sequer sentar.
Depois de finalmente ser atendido na emergência, fui encaminhado para a internação.
Continua no próximo post

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