terça-feira, 18 de julho de 2017

A retocolite e a azatioprina - continuação

Depois de bater à porta de alguns consultórios, encontrei na clínica Nossa Senhora do Carmo o Doutor Paulo Marcelo. Tive dupla sorte. Primeiro por finalmente achar um médico que tinha condições de acompanhar meu tratamento. Segundo, porque assim como o Dr. Antônio Carlos Moraes, ele me tratou de forma humana desde o começo. Desde a primeira consulta fui muito bem acolhido e mais uma vez ali havia alguém que cuidasse do paciente e não da doença.

Esse período foi bem difícil. As crises eram recorrentes, praticamente a cada seis meses. Como as crises eram quase sempre a indicação que eu tomaria prednisona, o tratamento tomou outro rumo, já que 2400mg de mesalazina com 50mg de azatioprina não estavam surtindo o efeito esperado. Então, a dose de azatioprina foi aumentada de 50 para 100mg. Graças a Deus essa era um tempo em que eu fazia consultas frequentes e realizava exames sempre que o Dr Paulo pedia. Tempo depois do aumento da dose os exames apontaram para uma pancreatite. Infelizmente, nesses casos o risco não vale a pena e a azatioprina teve que ser suspensa. Ou seja, a prednisona se tornou minha "única" arma contra as crises. 

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A retocolite e a azatioprina

Já em uso da mesalazina, o Doutor Antônio Carlos somou ao meu tratamento a azatioprina. O uso da azatioprina soa coerente com o que é a retocolite. Como eu disse antes, é uma doença autoimune. No caso da retocolite, o "invasor" é o intestino. A azatoprina é uma medicação usada por pessoas transplantadas. Coincidência ou não, meu irmão fazia uso na época por ter um rim transplantado. Como ele recebia as doses gratuitamente e estava com a dose reduzida, sobraram alguns, o que me fez economizar algum dinheiro. Aliás, assim que saí do consultório pela primeira vez já levei um susto por causa do preço do Mesacol. Graças a Deus não precisei comprar o Imuran (azatioprina). Comentei isso com o doutor e ele brincou dizendo que era uma doença de rico, dado o preço das medicações. 

E como a azatioprina atua? Trata-se de um imunossupressor. Ele baixa a imunidade do organismo para que o efeito autoimune da doença seja anulado. Entendi a lógica do imunossupressor e da doença definitivamente quando comecei a usar a azatioprina, afinal, são usados contra rejeição de órgãos transplantados que naturalmente o corpo rejeitaria. Então, da mesma forma, ele faz com que nosso organismo "aceite" o nosso intestino.

Passei um bom tempo fazendo tratamento com o doutor Antônio, mas como eu disse, era uma consulta paga e como ele era um médico conceituado era um valor considerável a ser desembolsado. Eram ainda tempos em que eu me recuperava financeiramente. Meu pai ajudava, mas com a medicação cara, ficou um pouco difícil. Comecei uma busca por outro médico que pudesse me acompanhar. Corri a lista dos médicos e fui percebendo que havia um problema. Os médicos se recusavam a me acompanhar porque diziam não ter histórico de pacientes com a doença, portanto, não teriam o know how para o tratamento. Mas Deus sempre teve misericórdia de mim e acabei encontrando outro médico para prosseguir com o tratamento.

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

A retocolite e a mesalazina

Diante de um especialista, algo iria mudar com certeza. Além da forma como fui tratado e de todo o esclarecimento, hora de substituir a medicação. Então, fui apresentado ao Mesacol, cujo princípio ativo é a mesalazina. Obviamente eu não saberia diferenciar tecnicamente a mesalazina da sulfasalazina. A mesalazina é a medicação usada atualmente para o tratamento de retocolite e doença de Crohn. São comprimidos revestidos para atravessar o estômago e liberar o princípio ativo no intestino grosso (leia aqui).

A mesalazina foi prescrita enquanto eu ainda reduzia a dose de prednisona. Que nenhuma medicação deve ser usada ou interrompida sem orientação médica nós já sabemos. Mas a prednisona, em particular, não pode ser bruscamente interrompida, conforme podemos ver aqui.

A prednisona causou alguns efeitos colaterais em mim. Inchaço devido à retenção de liquido, fadiga, apetite exagerado e o meu suor passou a ter um odor característico, não um cheiro ruim, mas peculiar. Mais a frente falarei de outros efeitos devido ao mau uso.

Nessa época, mesmo com o tratamento adequado, eu cheguei a ter uma crise desencadeada pelo meu estado emocional e para que eu pudesse sair mais rápido da crise sem ter que retomar a dose maior de prednisona, foi prescrita a mesalazina enema. A apresentação é em um frasco com uma cânula para aplicação, onde contém um veículo glicerinado e um envelope com 3g de mesalazina. A aplicação é simples, mas constrangedora. Eu nunca apliquei enema com alguém presente. Ou ficava no quarto sozinho ou forrava uma toalha no banheiro. A gente aplica diretamente pelo ânus. Como possui uma espécie de diafragma entre o tubo e o aplicador, o conteúdo não volta ao frasco. Também não é necessário que se aplique tudo porque a quantidade já foi projetada considerando a parte que não é introduzida. Quanto mais tempo se puder manter a medicação no intestino, melhor. Eu chegava a conseguir, inclusive, dormir com ela. A aceleração da melhora fica muito evidente.


Saí definitivamente da crise e me livrei do corticoide dessa vez. Depois de uma internação traumática, eu estava bem novamente, mas era necessário acompanhar isso de perto e dar prosseguimento ao tratamento. 

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quinta-feira, 13 de julho de 2017

A retocolite - O especialista

Quando saí do hospital ainda fiquei de licença um tempo. Foram dois meses e meio pelo INSS. Nesse tempo, uma vizinha e membro da mesma igreja disse que conhecia um médico que a tratava da síndrome do cólon irritável. Fui procurar o médico, que não atendia pelo plano. Marquei a consulta pelo particular e fomos, meu pai e eu, lá. Lembro que na época eu paguei o que correspondia a 17% do meu salário.

Conheci o Doutor Antônio Carlos Moraes e descobri o tratamento humano pela primeira vez. Com ele passei a saber o que é cuidar da doença e cuidar do paciente. Um dos maiores especialistas do Brasil e do mundo em doença inflamatória intestinal. Um dos médicos que me consultei anos depois o descreveu como "o papa das doenças inflamatórias intestinais". 

Foi uma longa consulta. Nela ele me esclareceu, pela primeira vez, o que era a retocolite. Trata-se de uma doença autoimune. No caso da retocolite, o intestino é reconhecido pelo organismo como um invasor e as defesas o atacam. Disse-me ainda ele que era uma doença predominante em pessoas de cor branca, tendo também relação com a descendência judia, o que não era o meu caso. Ela se manifesta na juventude, é crônica, sem cura, mas tratável.

O doutor Antônio me disse uma frase que me tranquilizou: "As pessoas morrem com retocolite e não de retocolite". Fui examinado, ele me contou história de pacientes e disse nunca morreu algum paciente dele em consequência da doença. 

Fiz, então, uma pergunta importante: e dieta? Preciso fazer alguma?! Então, recebi a melhor resposta possível. "Não". Ele me explicou que a causa da retocolite ainda era desconhecida mas que a alimentação não teria relação direta com ela. Mas fez ressalvas. Não é recomendado a quem tem retocolite ingerir comidas muito condimentadas porque pode irritar a parede intestinal. Durante a crise, nada de leite e derivados, pois pioram o quadro. Depois de uma longa explanação sobre a retocolite, fiquei bem mais tranquilo.

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A retocolite e a crise mais severa de todas

O meu diagnóstico foi em fevereiro de 1998. O tratamento, já que não sentia mais nada, foi abandonado pois achava ser um problema pontual resolvido. Colaborou para essa crença o fato de eu ter ficado longos cinco anos sem qualquer sintoma, nenhuma recaída, nada que me fizesse ao menos desconfiar que aquele problema que eu achava resolvido estava, na verdade, adormecido.

Em outubro de 2003, após nove meses desempregado, consegui emprego em uma excelente empresa. Meu amigo de adolescência Rodrigo e eu fomos fazer uma entrevista e uma prova. Como ele já tinha um emprego, abriu mão da disputa da vaga pra que eu fosse admitido. Assim foi e essa atitude nobre até hoje está contabilizada na gratidão que tenho por ele, atitude que não tinha sido a primeira e nem foi a última. Admitido, passei bem pelo período da experiência. Dias depois comecei a me sentir mal. A essa altura eu já sentia o fantasma daquilo que eu havia passado anos atrás. Agora, depois de ficar meses desempregado, ter conseguido um bom emprego e tendo acabado de passar na experiência, sustentei as dores, os sangramentos, o mal estar, as muitas idas ao banheiro até onde pude.

Até que um dia eu não consegui. Eram dores intensas e fui parar na enfermaria. Dali já fui levado ao hospital em Caxias no carro da empresa, acompanhado pelo técnico em enfermagem. Lá fiquei por algumas horas, recebi medicação pra dor. Procurei uma médica em Campo Grande, bairro onde moro até hoje, tive com ela uma consulta inicial. Sinceramente, não me lembro se ela me prescreveu a medicação novamente. Dieta eu sei que ela passou. Dias depois, voltei nela e foi quando ela pediu a minha internação. Era apenas uma clínica com consultórios e exames básicos, portanto ela solicitou uma ambulância. Nessa época eu tinha o plano de saúde da empresa.

Fui parar em um hospital da Semic, da rede do próprio plano. Meu pai sempre foi de reclamar se achasse que algo não estava de acordo. Fui deixado em uma enfermaria em um local anexo ao prédio principal do hospital. Janelas abertas, ventilador e acesso direto à área configuravam uma situação estranha e parecia não muito segura, em se tratando de uma unidade de saúde. Não demorou para o velho ligar para o RH da empresa expondo a situação e pedido a transferência para uma unidade melhor. No mesmo dia, a ambulância veio me buscar. A remoção foi para a unidade de Botafogo. 

Lá era uma enfermaria de três leitos. Na situação que eu estava, um banheiro para três pacientes era algo crítico. Assim que cheguei, fiquei no leito do meio, o o único que estava vago. Um dos internados disse: "Ih, logo você vai ter alta. Todo paciente que fica aí sai antes. Nós já estamos aqui há uns dias e já vimos vários saírem daí. Que engodo...

Se pudéssemos traçar um gráfico da minha trajetória na doença, certamente essa internação seria o ponto alto (ou mais baixo) que cheguei. As dores eram fortes demais, o sangramento era muito frequente. Havia momentos e que eu pedia pra morrer, tamanha era a dor. Em alguns momentos ela vinha tão forte que eu chegava a ver tudo preto e só não desmaiei por pura graça de Deus. Por duas vezes, em meio a muitas idas ao banheiro, deixei o termômetro cair porque passava tanto tempo lá dentro que esquecia que estava de termômetro. Sim, eram frequentes mesmo as evacuações durante dia e noite, chegando a mais de 20. Tinha vezes que eu sequer conseguia esperar a administração da medicação venosa. Ter que correr ao banheiro tantas vezes e com soro pendurado era tarefa complicada.

A medicação era a que eu já usava via oral - prednisona e  sulfasalazina - com antibiótico venoso. Também por via venosa era usado dipirona e Buscopan. Todos os dias eu recebia a visita de um médico. Ele checava minha pressão arterial, a temperatura, fazia exame clínico e sempre perguntava como eu estava. Eu sempre respondia que estava mal e a resposta dele sempre a mesma: é assim mesmo, é devagar.

Logo no início da internação, fiz um preparo para fazer a colonoscopia, dessa vez em um centro cirúrgico. Na volta, já despertando, tive reações horríveis: eu tremia de baita forte os dentes de tanto frio que sentia. O que disseram é que tinha sido por causa da anestesia. Até hoje acho estranho porque nunca mais tive essa reação. Talvez tenha sido mesmo, mas associado a minha condição física, que a essa altura estava deplorável.Mais tarde, depois de comer, tive a mesma coisa. Tive que receber auxílio de duas enfermeiras porque eu tive que ir ao banheiro. Lá eu quicava no no vaso, ao mesmo tempo que evacuava e vomitava. Acho que esse foi o pior momento que passei cercado de quatro paredes de azulejo. 

Nesse período de internação, o médico da Fabrimar, empresa que eu trabalhava na época, foi me visitar no hospital. Foi a única coisa que tive conhecimento porque eu o vi. Eu soube depois de muito tempo que ele havia perguntado ao médico do hospital sobre o meu estado. Na fábrica, meu amigo e colega de setor Reinaldo foi à enfermaria da empresa pra saber como eu estava. O doutor perguntou: você tem alguma fé?  Então ore porque a situação do rapaz não anda boa e ele não está reagindo à medicação. Essa declaração vinda de um médico me deu um panorama de como minha situação foi crítica durante toda a minha internação. 

Passaram-se longos 22 dias sem nenhuma alteração do meu estado, quando finalmente toda aquela medicação começou a fazer efeito. Depois de mais de três semanas em hospital, eu não suportava mais a tal dieta constipante: chá com torradas ou biscoito com geleia no café, lanche e ceia. Almoço e jantar com com frango ou carne e legumes cozidos em água e sal. Tempero zero. Eu já estava rejeitando a comida porque eu não aguentava mais. Todos os dias aparecia a nutricionista se virando pra tentar amenizar a coisa. Como eu não fazia ideia de quanto tempo mais ficaria ali e como estava começando a me sentir melhor, eu decretei: se não vier café com leite e comida temperada eu vou mandar voltar. Adiantou. Veio carne moída com vagem. Eu nem gostava de vagem, mas sentir gosto de comida de verdade, mesmo sendo de hospital, era maravilhoso. Raspei o prato.

Foram 25 dias no total. Fui pra casa decidido a comer de maneira mais saudável, achando que havia alguma relação com a retocolite. Embora já fosse 2004, eu ainda não tinha esclarecimento sobre a doença. A internet de casa era discada e no trabalho não havia acesso. Mesmo assim, era um mau negócio ler algo ali, porque tem muita informação ruim. Eu precisava de ajuda de verdade.

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

A retocolite - O início do tratamento

O resultado do exame, depois confirmado pela biópsia, eu me lembro até hoje: "Alterações compatíveis com retocolite ulcerativa em atividade". Fui eu pro consultório da médica onde ela não me explicou muito bem do que se tratava. A medicação prescrita foi Meticorten (prednisona) e Azulfin (sulfasalazina), duas medicações caras, não só pelo preço em si, mas pela dose prescrita, quantidade na caixa e continuidade do uso.  Nessa época não havia genéricos deles. A dose de corticoide - a prednisona - não foi alta nesse início, já que ela é prescrita de acordo com o peso e eu havia saído do meu peso habitual - 59 quilos para 51. Mesmo levando em conta a minha baixa estatura (1,66m), é pouco peso. Eu fiquei bem acabado...

Depois de passar onze dias hospitalizado, uma das perguntas que fiz à medica foi: estou proibido de comer alguma coisa? Ela disse que não tinha muito a ver a alimentação. Com tanto tempo ingerindo comida de hospital, a primeira coisa que quis comer foi esfirra do Habib's. Nesse dia eu me fiz. Discos de massa com carne e queijo que custava R$0,39 cada nunca me deixaram tão satisfeito...

Já em casa, iniciei o tratamento. Poucos dias depois eu já estava bem melhor. Diarreia e sangramento cessaram em menos de uma semana. Conheci, então, um dos primeiros efeitos colaterais da prednisosa: a apetite. Era um tempo onde se comprava sete pães por um real, e eu comia três no café da manhã e três no lanche. Nem preciso comentar que rapidamente recuperei meu peso.

Cheguei a ir a duas consultas eletivas no Hospital. Na primeira delas, uma solicitação de colonoscopia. Um exame mais completo pra verificar a situação intestinal com mais extensão. Não havia como fazer no Hospital da Lagoa, então fui encaminhado ao Hospital Souza Aguiar. Eu não me lembro do preparo da minha primeira colono, mas como nunca fiz diferente, deve ter sido com dieta zero, Manitol e algum laxante. Eu estava tranquilo para o exame. Na sala de espera havia um idoso extremamente debilitado que faria o exame antes de mim. Pensei: como a minha situação está boa. Até que a enfermeira passou com uma longa mangueira preta, olhou pra mim e disse: olha aqui o que te espera! Aí,acabou a tranquilidade. Vão enfiar aquilo ali em mim? E eu só pensava em uma coisa: é óbvio que tem que ser sedado.

Entrei e recebi a sedação. Não me lembro de nada depois disso e pra mim foi tranquilo. Meu irmão, do lado de fora me esperando, disse que foi desesperador porque eu gritava como quem estava sendo torturado. Essa situação em particular nunca se repetiu. Não sei dizer se fizeram pouca sedação. Só mesmo os médicos pra explicar. Nunca tive a curiosidade de buscar tal explicação. Busquei o resultado semanas depois e levei o resultado à médica. Continuei a tomar o Azulfin por alguns poucos meses. Era um período complicado financeiramente e contamos com a ajuda de algumas pessoas pra comprar algumas caixas. Inclusive, o próprio laboratório - Apsen - enviava algumas caixas pra auxiliar no tratamento.

Como eu não tinha esclarecimento o suficiente do que era a retocolite, não fazia ideia de que se tratava de uma doença crônica, sem cura. Sem sintomas por um bom tempo já e sem grana pra continuar bancando o tratamento. Eram oito comprimidos por dia, a caixa vinha com 60, portanto, eram necessárias quatro caixas por mês. Hoje, isso custaria em torno de R$320. A pouca grana e o longo período assintomático, aliados ao nenhum esclarecimento contribuíram para que eu deixasse de comprar o remédio e deixasse de marcar as consultas, acreditando ter o problema resolvido.

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A retocolite - o diagnóstico

Hospital da Lagoa

Uma vez dentro do hospital eu pelo menos sabia que algo finalmente seria feito. Fiquei em uma enfermaria de dois leitos, mas só tinha eu lá. Os detalhes do meu primeiro atendimento depois da emergência eu não me lembro.

Eu fiquei no sexto andar e tive que descer pra fazer um desconhecido exame e mais um nome grande e esquisito entrou pro meu vocabulário: retossigmoidoscopia. Eu não fazia ideia do que me esperava. Pra começar, o preparo. Eu não me lembro, mas certamente teve dieta ou jejum. Então fiz um clister glicerinado.Trata-se de uma daquelas garrafinhas de soro, com um equipo (mangueira) para uso em nutrição enteral. A gente introduz no ânus e deixa a glicerina descer. A vontade de evacuar é desesperadora, mas é necessário segurar a onda pra poder fazer o exame. Feito o preparo, elevador e lá fui eu. Cheguei à sala do exame, e havia umas três ou quatro pessoas. Diferente dos exames que fiz depois (nisso falo em outras postagens), descrevo a cena. Era uma prancha inclinada onde eu tinha que apoiar a barriga, ou seja, as nádegas ficavam apontando pra cima.
Um tubo de metal nada modesto foi introduzido e aquilo doía demais, pois a todo instante mexiam na direção do equipamento. Essa experiência eu posso classificar como muito ruim, ainda mais com toda a região muito inflamada. Mas enfim, foi necessário pra que fosse descoberto o que eu tinha.

Como eu não fazia ideia de como estava o meu estado físico, falo pela debilidade do corpo, resolvi não usar o elevador. Disse que estava no sexto andar, não é? Resolvi subir de escada os seis andares e o que aconteceu foi terrível. Cheguei à enfermaria e desabei na cama. O ar não vinha e parecia que eu tinha corrido a maratona de Nova Iorque.  Ali eu tive a perfeita noção de como meu corpo estava debilitado. Não me lembro quanto tempo levei pra conseguir voltar ao normal, mas aquilo foi tenso.

Pra ajudar no diagnóstico, exame de fezes, fora o hemograma. Sobre o exame de fezes, um fato curioso e até engraçado. Foi a minha primeira situação constrangedora pela doença, embora não tenha passado o vexame diretamente. Coletei minhas fezes com o pote que me deram. Não era como os de hoje, com rosca, mas de tampa de encaixe. Estou eu deitado no leito quando sinto um cheiro forte de esgoto vindo do corredor. O banheiro ficava na entrada da enfermaria e pela porta entrava um vento que trazia o cheiro. Nada daquele fedor horrível passar. Teve uma hora que veio uma comitiva de médicos (não sei se o coletivo se aplica à classe). Acho que apenas estavam vistoriando o hospital. Fizeram algumas perguntas e se foram. Levantei pra ir ao banheiro e quando parei de frente pra porta, era um cenário de horror. Por algum fenômeno físico ou químico, talvez uma fermentação, aquilo tornou-se uma bomba. Havia cocô na pia, nas paredes, no vaso, no piso, na toalha que estava estendida... Muito envergonhado e antes que alguém pudesse ver, limpei tudo. Usei muito papel e quando vi que não resolveria e já que a toalha estava em estado deplorável, limpei tudo e depois gastei quase todo o sabonete pra lavar a coitada. Depois de "nova em folha", coloquei pra secar, mas acabei pedindo que trouxessem outra.

O procedimento lá era meio estranho. Desci para o exame sozinho. Quando era pra pegar o resultado, também. Lembrando que eu estava lá internado e me arrastando. De posse do resultado, veio o diagnóstico de retocolite. Eu não fazia ideia do que poderia ser aquilo. A médica não me explicou nada a respeito. Receberia alta no dia seguinte, depois de longos onze dias de internação.

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A retocolite - Primeiros sintomas.

Em 1998, esse negócio de internet apenas engatinhava no Brasil. Diferente de hoje, quando antes de você gritar "ai" a sua topada já está exposta até o ex-planeta Plutão, o acesso à informação sobre a retocolite ainda era resumido à TV, jornais, revistas e literaturas específicas. Por isso, não tive desespero quando descobri que tinha uma doença de nome grande e esquisito: retocolite ulcerativa idiopática. Ao contrário do que acontece hoje, época em que você faz uma pesquisa simples e os olhos parecem que só acham aqueles sintomas que causam tremor na alma.

Em 1997, comecei a sentir os primeiros sintomas. Em princípio, atribuí  aquela diarreia com sangramento a um biscoito com data vencida que comi. Dias depois, comi um açaí na tigela. Era a época onde todas as casas de suco do Rio serviam o suco cremoso da fruta que tomava conta da cidade. Como foi minha primeira experiência, achei que fosse reação ao meu lanche. No ônibus de volta pra casa, eu suava frio no meio da viagem e cheguei a minha casa depois de um grande sufoco.  Misturando tudo isso, é óbvio que eu só poderia atribuir minha situação ao que eu havia ingerido. Só que os sintomas se arrastavam por dias e eu comecei a ficar preocupado com aquilo. Diarreia, dor, sangramento com vários episódios ao dia.  Aquilo estava se tornando sério.

Eu tinha um problema: escondia essa situação das pessoas, mas chegou um dia que não tive mais como. Não havia plano de saúde nessa época, então eu precisava recorrer aos serviços públicos que, embora ruins, eram bem melhores que hoje em dia. Comecei procurando o que estava mais acessível. Atrás da minha rua havia um serviço social de um vereador. Fui lá e a experiência foi bem ruim. Relatei todos os sintomas que sentia mas eu notava certa insegurança no médico. E eu tinha razão, porque não era, pois se tratava de um estagiário. Ele ouviu, suou um pouco, pegou uma das caixas de amostras de remédios, leu toda a bula e me receitou o próprio. O diagnóstico? Giardíase. Tomei aqueles comprimidos mas não vi nada melhorar. Até então eu relatava a minha família que sofria de uma diarreia que não passava. Não teve jeito e tive que encarar o Hospital Rocha Faria, na época, do Estado. Em meio a tanta gente e aguardando minha vez, meu pai, que me acompanhava, perguntou se eu tinha sangramento. Era o que eu teria que dizer ao médico, então eu disse que sim. E assim foi. O médico me chamou, relatei tudo e ele, sem pedir exame, cravou: giardíase e me passou o mesmo medicamento. Mas como agora era um médico, pensei em acreditar. Lógico que não adiantou porque eu não melhorei nada - e nem poderia. 

A essa altura, eu já havia perdido peso depois de seguidos dias no mesmo estado. Enquanto eu e minha família procurávamos onde resolver meu problema, algumas receitas mágicas de vizinhos. A pior experiência nesse sentido tive quando uma vizinha apresentou um remedinho caseiro: água, suco de limão, vinagre, açúcar e farinha de mandioca. Claro que não quis tomar, mas como insistiram tanto, bebi aquela água esquisita, sabendo que não adiantaria nada. Acho que esse foi meu primeiro trauma da doença. Imagina se limonada sabor vinagre iria resolver um sangramento de tantos dias. 

Algumas pessoas apareciam lá em casa pra tentar ajudar. Uma delas queria levar uma "folha ungida" da Universal pra colocar sob meu travesseiro. Neguei na hora. Apareciam algumas pessoas pra orar de maneiras avessas ao que Deus nos ensina. Fora essas, eu sempre recebi orações por parte da igreja, da família e amigos com a mesma confissão de fé. Era mesmo pra isso acontecer, mas eu precisava mesmo de um bom médico.

Até que entramos em contato com meu tio Paulo Lomba, que tinha um contato no Hospital da Lagoa. Fomos pra lá cedo e ele me levou de carro, com meu pai acompanhando. Já nesses dias eu não podia ficar tanto tempo fora de casa por ter que ir tantas vezes ao banheiro. Lá eu cheguei a ir enquanto esperava me chamarem na emergência. Teve uma hora que fiquei tão fraco que deitei no banco de concreto que ficava na área externa do hospital. O segurança chamou atenção dizendo que não poderia ficar ali. Aí foi a vez do meu tio chamar a atenção dele, pois já havia horas que eu estava ali sem nenhuma condição de sequer sentar.

Depois de finalmente ser atendido na emergência, fui encaminhado para a internação.
 
Continua no próximo post

Por que a retocolite e eu?




Há alguns anos, eu administrava um blog no qual postava coisas de diversos assuntos. Como sempre gostei muito de escrever, fazia isso com certa frequência. Em uma dessas dissertações, resolvi, baseado no meu estado psicológico da época, descrever o cenário do que era aquela doença pra mim, desde a sua descoberta. Mas o blog ficou abandonado depois de certo tempo. Nunca mais escrevi nada lá. Deve ter faltado inspiração, porque assunto é que não faltou.

Ocorre que, até hoje, vira e mexe alguém, certamente pesquisando sobre a retocolite, encontra essa postagem que fiz. O que escrevi no dia do meu aniversário em 2013 me trouxe pessoas com as quais acabo mantendo certo contato. Devido a minha experiência de quase vinte anos com a doença, consigo ajudar a alguns, acalmar a outros que descobrem o problema e se desesperam. Por causa disso, há alguns meses, minha  esposa insiste na ideia que deveria retomar o blog. Como lá eu tratava de outros tantos assuntos, resolvi criar este aqui pra falar exclusivamente do assunto. Dessa forma, o google pode trazer pra cá algumas pesquisas onde posso ser uma gota rasa nesse oceano tão profundo, onde existem grupos, páginas de Facebook, associações específicas, sem contar diretamente a área médica, parte primeira no assunto.

A intenção do blog não é trazer orientações sobre a doença. Essa seara é exclusivamente médica. Aqui serão compartilhadas experiências, ouvir pessoas, indicar onde se pode pedir ajuda, falar de médicos, tratamentos e outras coisas mais, mas tudo sob a ótica do paciente, ou melhor do paciente, no caso, eu.