O meu diagnóstico foi em fevereiro de 1998. O tratamento, já que não sentia mais nada, foi abandonado pois achava ser um problema pontual resolvido. Colaborou para essa crença o fato de eu ter ficado longos cinco anos sem qualquer sintoma, nenhuma recaída, nada que me fizesse ao menos desconfiar que aquele problema que eu achava resolvido estava, na verdade, adormecido.
Em outubro de 2003, após nove meses desempregado, consegui emprego em uma excelente empresa. Meu amigo de adolescência Rodrigo e eu fomos fazer uma entrevista e uma prova. Como ele já tinha um emprego, abriu mão da disputa da vaga pra que eu fosse admitido. Assim foi e essa atitude nobre até hoje está contabilizada na gratidão que tenho por ele, atitude que não tinha sido a primeira e nem foi a última. Admitido, passei bem pelo período da experiência. Dias depois comecei a me sentir mal. A essa altura eu já sentia o fantasma daquilo que eu havia passado anos atrás. Agora, depois de ficar meses desempregado, ter conseguido um bom emprego e tendo acabado de passar na experiência, sustentei as dores, os sangramentos, o mal estar, as muitas idas ao banheiro até onde pude.
Até que um dia eu não consegui. Eram dores intensas e fui parar na enfermaria. Dali já fui levado ao hospital em Caxias no carro da empresa, acompanhado pelo técnico em enfermagem. Lá fiquei por algumas horas, recebi medicação pra dor. Procurei uma médica em Campo Grande, bairro onde moro até hoje, tive com ela uma consulta inicial. Sinceramente, não me lembro se ela me prescreveu a medicação novamente. Dieta eu sei que ela passou. Dias depois, voltei nela e foi quando ela pediu a minha internação. Era apenas uma clínica com consultórios e exames básicos, portanto ela solicitou uma ambulância. Nessa época eu tinha o plano de saúde da empresa.
Fui parar em um hospital da Semic, da rede do próprio plano. Meu pai sempre foi de reclamar se achasse que algo não estava de acordo. Fui deixado em uma enfermaria em um local anexo ao prédio principal do hospital. Janelas abertas, ventilador e acesso direto à área configuravam uma situação estranha e parecia não muito segura, em se tratando de uma unidade de saúde. Não demorou para o velho ligar para o RH da empresa expondo a situação e pedido a transferência para uma unidade melhor. No mesmo dia, a ambulância veio me buscar. A remoção foi para a unidade de Botafogo.
Lá era uma enfermaria de três leitos. Na situação que eu estava, um banheiro para três pacientes era algo crítico. Assim que cheguei, fiquei no leito do meio, o o único que estava vago. Um dos internados disse: "Ih, logo você vai ter alta. Todo paciente que fica aí sai antes. Nós já estamos aqui há uns dias e já vimos vários saírem daí. Que engodo...
Se pudéssemos traçar um gráfico da minha trajetória na doença, certamente essa internação seria o ponto alto (ou mais baixo) que cheguei. As dores eram fortes demais, o sangramento era muito frequente. Havia momentos e que eu pedia pra morrer, tamanha era a dor. Em alguns momentos ela vinha tão forte que eu chegava a ver tudo preto e só não desmaiei por pura graça de Deus. Por duas vezes, em meio a muitas idas ao banheiro, deixei o termômetro cair porque passava tanto tempo lá dentro que esquecia que estava de termômetro. Sim, eram frequentes mesmo as evacuações durante dia e noite, chegando a mais de 20. Tinha vezes que eu sequer conseguia esperar a administração da medicação venosa. Ter que correr ao banheiro tantas vezes e com soro pendurado era tarefa complicada.
A medicação era a que eu já usava via oral - prednisona e sulfasalazina - com antibiótico venoso. Também por via venosa era usado dipirona e Buscopan. Todos os dias eu recebia a visita de um médico. Ele checava minha pressão arterial, a temperatura, fazia exame clínico e sempre perguntava como eu estava. Eu sempre respondia que estava mal e a resposta dele sempre a mesma: é assim mesmo, é devagar.
Logo no início da internação, fiz um preparo para fazer a colonoscopia, dessa vez em um centro cirúrgico. Na volta, já despertando, tive reações horríveis: eu tremia de baita forte os dentes de tanto frio que sentia. O que disseram é que tinha sido por causa da anestesia. Até hoje acho estranho porque nunca mais tive essa reação. Talvez tenha sido mesmo, mas associado a minha condição física, que a essa altura estava deplorável.Mais tarde, depois de comer, tive a mesma coisa. Tive que receber auxílio de duas enfermeiras porque eu tive que ir ao banheiro. Lá eu quicava no no vaso, ao mesmo tempo que evacuava e vomitava. Acho que esse foi o pior momento que passei cercado de quatro paredes de azulejo.
Nesse período de internação, o médico da Fabrimar, empresa que eu trabalhava na época, foi me visitar no hospital. Foi a única coisa que tive conhecimento porque eu o vi. Eu soube depois de muito tempo que ele havia perguntado ao médico do hospital sobre o meu estado. Na fábrica, meu amigo e colega de setor Reinaldo foi à enfermaria da empresa pra saber como eu estava. O doutor perguntou: você tem alguma fé? Então ore porque a situação do rapaz não anda boa e ele não está reagindo à medicação. Essa declaração vinda de um médico me deu um panorama de como minha situação foi crítica durante toda a minha internação.
Passaram-se longos 22 dias sem nenhuma alteração do meu estado, quando finalmente toda aquela medicação começou a fazer efeito. Depois de mais de três semanas em hospital, eu não suportava mais a tal dieta constipante: chá com torradas ou biscoito com geleia no café, lanche e ceia. Almoço e jantar com com frango ou carne e legumes cozidos em água e sal. Tempero zero. Eu já estava rejeitando a comida porque eu não aguentava mais. Todos os dias aparecia a nutricionista se virando pra tentar amenizar a coisa. Como eu não fazia ideia de quanto tempo mais ficaria ali e como estava começando a me sentir melhor, eu decretei: se não vier café com leite e comida temperada eu vou mandar voltar. Adiantou. Veio carne moída com vagem. Eu nem gostava de vagem, mas sentir gosto de comida de verdade, mesmo sendo de hospital, era maravilhoso. Raspei o prato.
Foram 25 dias no total. Fui pra casa decidido a comer de maneira mais saudável, achando que havia alguma relação com a retocolite. Embora já fosse 2004, eu ainda não tinha esclarecimento sobre a doença. A internet de casa era discada e no trabalho não havia acesso. Mesmo assim, era um mau negócio ler algo ali, porque tem muita informação ruim. Eu precisava de ajuda de verdade.
Continua no post "A retocolite - O especialista"